O uso de Máscara pode afetar meu desempenho na dança?

Algumas escolas de dança em algumas cidades brasileiras já estão podendo retomar as atividades depois de fechadas por causa da pandemia, não é?

Uhulll!!

Mas espera: A pandemia não acabou e ainda tem várias recomendações a serem seguidas, como número reduzido de alunos dentro de sala de aula para manter o distanciamento, uso de álcool em gel e similares em superfícies incluindo a superfície do nosso corpo. E não podemos esquecer do uso de MÁSCARAS!

As bonitas, feias, coloridas, pretas, transparentes…, mas além de nos preocuparmos com o fato das máscaras esconderem nosso sorriso ao dançar ou combinarem (nem um pouco) com o figuro a pergunta mais importante que devemos fazer é:

O USO DA MÁSCAR PODE INFLUENCIAR MEU DESEMPENHO NA DANÇA?

Quem já dançou O Quebra Nozes ou qualquer outro ballet que tenha utilizado figurinos tampando a boca, o nariz ou a cabeça inteira sabe a dificuldade que é respirar nessas condições.

 E o ar que inspiramos é estritamente necessário para trazer a quantidade de oxigênio nossos músculos precisam para a contração muscular, e, consequentemente, dançar.

Para que haja ação muscular é preciso um constante fornecimento de oxigênio, gorduras e carboidratos. Estes elementos são transportados para o músculo através dos vasos sanguíneos. Quando o sistema nervoso central manda um comando de ação para os músculos por meio da placa motora, é por meio de uma reação química utilizando o oxigênio, a gordura e o carboidrato que fornecerá energia para os músculos.

O corpo tem duas maneiras de fornecer esta energia necessária para o trabalho do músculo: aeróbica e anaeróbica. O processo aeróbico acontece quando o músculo tem oxigênio suficiente para o trabalho que ele vai fazer. Neste caso, as mitocôndrias na célula transformam o oxigênio e o carboidrato ou a gordura em energia, chamada Adenosina Trifosfato (ATP). A sobra de toda esta combustão é a água e o gás carbônico (CO2), que são transportados pelo sangue até os pulmões e são liberados pela respiração. Este processo de quebra de glicose (carboidratos) ou lipídeos (gordura) utilizando o oxigênio disponível no sangue demora um determinado tempo. Se não há esse tempo disponível para captar o oxigênio necessário para a produção da energia pois tenho que fugir de um leão, correr atrás do ônibus ou realizar 32 fouettés, a energia é produzida do que chamamos de processo anaeróbico.

Como o corpo não tem como fornecer a energia com ajuda do oxigênio ele faz a combustão sem oxigênio, usando só os carboidratos. É um processo dinâmico e rápido. Porém, produz ácido láctico, que se acumula no músculo. Se o oxigênio não for suficiente para dar continuação ao trabalho muscular, o ácido láctico produzido vai chegar a uma proporção que impossibilita o movimento e o músculo para de funcionar momentaneamente necessitando um tempo de descanso para começar a funcionar normalmente de novo (Tabela 1).

Tabela 1: Ilustração dos sistemas de produção de energia 

É exatamente influenciando a quantidade de oxigênio inalado que as máscaras vão atuar e em muitos casos podem dar a impressão de que não há ar suficiente, além de serem extremamente desconfortáveis! Contudo, o uso de máscaras é essencial como medida preventiva a contaminação e disseminação do COVID-19. Quando cobrimos a boca e o nariz nós protegemos outras pessoas das nossas gotículas de saliva que podem estar contaminadas e serem espalhadas nas superfícies entrando em contato com outras pessoas. Principalmente em ambientes fechados e com menos ventilação como as salas de dança, e ainda mais quando estamos nos movimentando, já que a frequência respiratória aumenta.

Apesar do uso das máscaras poder dificultar a respiração, alguns estudos sugerem que não haverá dificuldade de absorção de oxigênio e liberação de gás carbônico suficiente para diminuir o desempenho na dança. (Epstein et al., 2021) comparou o desempenho de indivíduos saudáveis no exercício aeróbico em esteira com inclinação utilizando máscaras e concluíram que exercícios moderados de curta duração com a utilização de máscaras é viável e segura mesmo que associado com pequenas perdas de desempenho de parâmetros fisiológicos, especialmente pelo aumento do gás carbônico. A maioria dos estudos foram realizados avaliando atividade aeróbicas, contudo, nem todas as danças são estritamente atividades aeróbicas.

Uma sugestão para quem esteja sentindo dificuldade de respirar ou que as respirações estejam sendo muito curtas seria utilizar um outro tipo de máscara, com um tecido que facilite a respiração. O ideal é utilizar máscaras que permitam a passagem do ar, mas que contenham as gotículas emanadas ao respirar. Um exemplo são as máscaras feitas com tecido de algodão. É importante lembrar, contudo, que essas máscaras podem absorver as partículas de água da respiração e acabar se molhando, diminuindo consideravelmente a sua eficácia. Então, tenha sempre um par extra para ser trocado até mesmo durante a aula. Retire a máscara sempre pelas laterais, spray um pouco de álcool e a coloque em um recipiente separado até o momento em que poderá lavar a máscara e desinfetar o recipiente. Isso é ainda mais importante quando o bailarino fica muitas horas na escola de dança.

Não são recomendadas máscaras N95/P2 para a população em geral e nem máscaras cirúrgicas. Essas máscaras são de uso único, com isso, há grande desperdício, o que não é bom para o planeta. Além do use de máscaras descartáveis aumentar a produção de lixo, aumenta o consumo e com isso o preço de venda. Desta forma, hospitais e profissionais da saúde que DEVEM utilizar essas máscaras podem ter mais dificuldade em adquiri-las. Além disso, a quantidade de máscaras no mercado pode ficar prejudicada deixando esses profissionais expostos ao risco. Estudos comparando o uso de máscaras de tecido com outras máscaras comprovaram que não há diferença no uso das mesmas pela população geral (Asadi et al., 2020).

Outros estudos encontraram diminuição do desempenho nos exercícios de força causados pela diminuição do fluxo de ar (Motoyama et al., 2016; Andre et al., 2018). É como se estivéssemos exercitando em altitude, onde a quantidade de oxigênio é muito menor. O bailarino pode fadigar muito mais rápido por não ter o oxigênio necessário para transformar a glicose muscular em energia. Mas se podemos realmente comparar os exercícios com máscara com exercícios em altitude, podemos também olhar as boas consequências que isso pode trazer. Treinar nessas condições pode aumentar a força dos músculos respiratórios, a capacidade pulmonar e a eficiência da troca gasosa em um determinado período (Burtscher et al., 2010).

Dependendo da intensidade e do tipo de exercício a utilização de máscaras não será um grande problema, mas quando a intensidade do exercício aumenta o desempenho pode ficar cada vez mais prejudicado. Em pessoas que já apresentam alguma disfunção cardiorrespiratória, o ideal é diminuir ainda mais a intensidade do exercício para evitar qualquer desconforto ou efeitos colaterais, como tonturas e vertigem. Ou então se familiarizar com o uso das máscaras em casa, começando com alguns pliés, depois um forrozinho, e assim vamos até chegar ao sapateado irlandês (hihi).

Brincadeiras à parte, é importante lembrar que cada pessoa é única, e que apesar de estudos sugerirem que as máscaras podem não afetar o desempenho, esses estudos foram realizados com pessoas saudáveis e jovens. Aqueles que sofrem com condições como asma ou qualquer outra doença respiratória podem ser muito prejudicados pelo uso das máscaras.

Crianças também devem usar máscaras?

Apesar do número de mortes ser raro em crianças dados coletados pela American Academy of Pediatrics (Academia Americana de Pediatria) informou que até janeiro de 2021 aproximadamente 2,82 milhões de crianças foram testadas positivo para COVID-19 desde que a pandemia começou. E mais de 140 mil novos casos foram reportados na segunda semana de fevereiro. Exatamente porque a severidade da doença é muito mais leve em crianças é que elas se tornam os maiores casos de portadores assintomáticos do vírus, podendo passar o mesmo para outras pessoas, especialmente as vovós e vovôs, dos tais grupo de risco. Por isso, sim, crianças também deve usar máscaras, especialmente para salvar a vida de outras pessoas.

Por fim, é importante ressaltar a realização de atividade física é importante para manter a saúde, aumentar a imunidade e diminuir a gravidade no caso de contaminação com o vírus. Contudo, apesar da importância do retorno às atividades para jovens que objetivam construir carreira na dança e esportes, o retorno ainda deve considerar fator como contaminação prévia. Aqueles que tenham sido contaminados previamente pelo COVID-19, mesmo que recuperados, ainda podem apresentar consequências causadas pela contaminação. Infelizmente, ainda não está claro na literatura quais as sequelas causadas por esse vírus e o tempo que elas podem permanecer no organismo (Phelan et al., 2020). Alguns pacientes relataram que sintomas como fadiga aumentada e diminuição das capacidades olfativa e palatável permaneceram mesmo após recuperados.

Enquanto a ciência ainda corre atrás destas respostas uma coisa é certa: respeita as normas, o distanciamento, o uso de máscaras e dance ComCiência.

ANDRE, T. L.  et al. Restrictive breathing mask reduces repetitions to failure during a session of lower-body resistance exercise. The Journal of Strength & Conditioning Research, v. 32, n. 8, p. 2103-2108,  2018. ISSN 1064-8011. 

ASADI, S.  et al. Efficacy of masks and face coverings in controlling outward aerosol particle emission from expiratory activities. Scientific reports, v. 10, n. 1, p. 1-13,  2020. ISSN 2045-2322. 

BURTSCHER, M.  et al. Effects of intermittent hypoxia on running economy. International journal of sports medicine, v. 31, n. 09, p. 644-650,  2010. ISSN 0172-4622. 

EPSTEIN, D.  et al. Return to training in the COVID‐19 era: The physiological effects of face masks during exercise. Scandinavian journal of medicine & science in sports, v. 31, n. 1, p. 70-75,  2021. ISSN 0905-7188. 

MOTOYAMA, Y. L.  et al. Airflow-restricting mask reduces acute performance in resistance exercise. Sports, v. 4, n. 4, p. 46,  2016.  

PHELAN, D.; KIM, J. H.; CHUNG, E. H. A game plan for the resumption of sport and exercise after coronavirus disease 2019 (COVID-19) infection. JAMA cardiology, v. 5, n. 10, p. 1085-1086,  2020. ISSN 2380-6583. 

Texto: Dra. Bárbara Pessali Marques – Bastidores – Dança, Pesquisa e Treinamento

www.bastidorestreinamento.com

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